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Comunicado da ANEFA - Viveiros florestais sequestrados


Numa altura em que o sector florestal em Portugal se encontra extremamente fragilizado pelo alastramento do Nemátodo da Madeira do Pinheiro, surge mais uma prova de fogo à floresta de pinho nacional, o Cancro Resinoso do Pinheiro.
 
Desde 2006 que esta doença tem merecido especial atenção por parte da Comissão Europeia, que estabeleceu medidas de emergência contra a introdução e a propagação da Gibberella circinata Nirenberg & O’Donnell, na Comunidade. Atenta à questão e já em 2008, a ANEFA alertou, por diversas vezes, as autoridades portuguesas, tendo mesmo chegado a elaborar um documento em que reuniu informação relativa à temática, questionando, inclusivamente, as consequências da falta de acção em tempo útil e alertando para que não se ignorasse o problema até já nada haver, senão a destruição e corte massivo de plantas.
 
A verdade é que, mais de um ano depois, esta é a realidade. A Autoridade Florestal Nacional (AFN) não encarou a situação com a importância devida e a falta de controlo atempado levou a uma situação limite, estando hoje os viveiros como que sequestrados, impedidos de comercializar todas as espécies de Pinus.
 
Não conformada com a questão, a ANEFA promoveu, na passada semana, o Encontro Nacional de Viveiristas, onde dezenas de empresários participaram, na tentativa de obter esclarecimentos e de expor a situação insustentável por que está a passar a grande maioria dos fornecedores de material florestal de reprodução.
 
Com a situação totalmente fora do controlo, no presente, a AFN está a desenvolver uma série de inspecções fitossanitárias aos viveiros, tendo sido, no entanto, detectadas inúmeras irregularidades, nomeadamente, nas condições em que estão a ser realizadas as recolhas de material para amostragem.
“Não conseguimos entender porque é que as amostragens tiveram apenas início em Outubro, em pleno arrancar da campanha, deixando os viveiristas de pés e mãos atadas. Além disso, são vários os contactos que temos recebido, com a informação de que os inspectores fitossanitários andam de viveiro em viveiro, transportando consigo amostras potencialmente contaminadas com Fusarium circinatum, o que demonstra a ligeireza com que as autoridades estão a lidar com esta questão”, adianta a Direcção da ANEFA.
 
Laboratórios sem capacidade de resposta
 
Outro dos problemas apresentados no Encontro é a falta de capacidade de resposta dos laboratórios envolvidos no processo. Até à data, apenas dois centros de análise estão protocolados com a AFN, o que tem condicionado a celeridade necessária ao sistema.
“É inadmissível que um problema detectado a nível nacional não tenha sido encarado com a seriedade devida. Se, à partida, se sabia que todos os viveiros iriam ser alvo de recolha de amostras, era de fácil percepção que apenas dois laboratórios de análises não seriam suficientes. Agora, acumulam-se amostras, sem data prevista de análise, colocando todo o sistema em causa, pois não há garantia que não haja, posteriormente, contaminação das amostras”.

 A Direcção da ANEFA garante, ainda, ter apresentado o seu propósito em protocolar com outra instituição, para que fosse possível contornar o tempo de resposta. No entanto, a AFN ainda não manifestou qualquer intenção de considerar esta hipótese, continuando sem comunicar os resultados das amostras recolhidas.

“Não se pode avançar com este tipo de metodologia sem garantir as condições mínimas de resposta e a verdade é que, salvo os viveiros cujas amostras são na sua totalidade negativas, não foi divulgada qualquer informação. Isto significa que plantas contaminadas continuam no terreno, juntamente com plantas sãs”.
 
A preocupação assenta agora sobre a decisão da Comissão, que adianta que os fornecedores de material florestal de reprodução, que apresentem amostras positivas para o Fusarium circinatum, deverão ser proibidos de comercializar plantas coníferas, durante 2 anos. Esta situação está a deixar os viveiros em sobressalto, pois o facto de ainda não terem informação sobre o resultado das análises compromete já a próxima campanha, uma vez que não poderão correr o risco de realizar a sementeira e depois, não poderem comercializar as plantas.
 
Não sendo suficiente, os viveiristas continuam a assistir à destruição de centenas de milhares de plantas florestais, por não haver articulação entre a sua produção e a elaboração de projectos. No final do Encontro, a Direcção da ANEFA deixou um apelo às autoridades:
“Se, por um lado, há restrição na venda de pinheiros, por outro, temos um ProDeR que não funciona. Ainda não foi contratado nenhum projecto florestal, o que significa que também não se está a vender outras espécies. Se isto não é a condenação dos viveiristas nacionais, então o que será? A floresta portuguesa está por um fio e só os Senhores do Poder poderão fazer alguma coisa para reverter esta situação.”
 
Numa altura em que a sustentabilidade da floresta de pinho está em risco, devido ao problema do nemátodo e à redução drástica da taxa de arborização, este é mais um entrave à fileira, questões burocráticas que colocam em risco as empresas do sector e a indústria que utiliza essa madeira como matéria-prima.
 
Embora se tenha consciência de que devemos aprender a viver com este tipo de pragas, estes temas exigem sempre uma intervenção imediata e eficaz para que o impacte sobre o sector seja o menos significativo possível. No entanto não foi o que se verificou. O incumprimento ao nível do Estado coloca agora milhares de postos de trabalho em risco e contribui para o encerramento de inúmeras empresas devido à perda de negócios.
 
A ANEFA relembra que o Cancro Resinoso do Pinheiro, provocado pelo fungo Fusarium Circinatum, afecta o hospedeiro em todos os seus estados de desenvolvimento e em qualquer altura do ano, e pode ser detectado em sementes, agulhas, pinhas, ramos, rebentos, troncos e raízes. Encontrando-se já difundido por todo o mundo, Espanha, Itália e Portugal são os principais focos na Europa.
Published on: 04 DEZ 2009
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